Minha amiga Ornella Baroni, do Divulgando Desaparecidos, me enviou este texto, escrito em 10 de outubro de 2007 por Deep Pain. Deep fazia parte de um grupo de voluntários que denunciava pedófilos no Orkut (tema de vários posts aqui no DeTudo) e alertava pais sobre os perigos que os filhos corriam naquela rede social. Infelizmente, os pais, por sua negligência, burrice ingenuidade e omissão, continuam expondo os filhos aos pervertidos da grande teia. O Orkut não é mais aquilo tudo, os bandidos se mudaram para o Facebook e o perigo continua. Por isso, decidi publicar o texto tal qual foi escrito cinco anos atrás: o alerta ainda é necessário.
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Miguxos tarados amam pais irresponsáveis
Outubro 10, 2007. Por Deep Pain
Bárbara Ferreira está no Orkut (ou tem Orkut, como preferem os brasileiros). Ela tem quase duzentos amigos, e recebe recados praticamente todos os dias, e responde a muitos deles. É muito popular. Bárbara participa (ou pelo menos está inscrita) em uma centena de comunidades. E o álbum de fotos dela? Uau! Que sucesso elas fazem! Especialmente as fotos de biquini na praia. Aquele biquini ínfimo, a garota fazendo caras e bocas em cada pose, um sorriso maroto na cara; na outra foto ela aparecendo ajeitando o biquini no bumbum… Os homens ficam loucos, completamente. As fotos dela são devoradas por um bando de marmanjos masturbadores declarados em suas comunidades especializadas em coletar imagens desse tipo.
Há um detalhe: Bárbara não sabe ler nem escrever. Ela tem apenas três anos. Ela nem mesmo sabe que está no Orkut.
Bárbara Ferreira não existe. Ou melhor, existe, sim, às centenas. A Bárbara que eu inventei é a síntese de muitas crianças que são expostas no Orkut por pais irresponsáveis, e isso faz a delícia pervertida de dezenas de pedófilos.
Uma criança no Orkut é, em primeiro lugar, a aprovação de uma mentira. Os termos do sítio de relacionamento são muito claros: ele é apenas para maiores de 18 anos. [Nota do DeTudo: no Facebook a idade mínima obrigatória é 13 anos.] Quando se preencha o perfil, a data de nascimento mais antiga que se pode colocar é 1988. [Nota: o texto foi escrito em 2007.] Portanto, se um pai cadastrou seu pequerrucho naquele lugar, está mentindo e aceitando uma
mentira. Belo exemplo, não? Quer pais gostem ou não, quer sociólogos e crianças discutam sobre os novos tempos e a nova maturidade, o fato é que, ao se tornar um orkuteiro, a primeira coisa que o usuário tem de dizer é: “Tenho mais de 18 anos”. Se não tem e está lá, mentiu.
Em decorrência disso, o Orkut não é lugar de criança. Está também escrito nos termos do serviço (brasileiro tem preguiça de ler ou tem mania de burlar leis e regras): o Orkut é uma comunidade para adultos. E qualquer pai que não seja um completo alienado sabe muito bem o que significa, na internet, alguma coisa ser “para adultos”. Com certeza, não é um lugar para seu bebê estar. “Mas o que que tem demais?” Nada, prezado pai irresponsável. Assim como não tem nada demais eu convidar sua filha de dez anos para ir a um bar proibido para menores. Ou você levar seu filho de 11 anos para assistir a um filme pornô proibido para menores. Ou você permitir que seu filho de 14 dirija seu carro pela cidade. É tão sem nada demais como o dono do bar da esquina vender um copo de 51 pra sua pimpolha de 12 anos. “Ah, mas tudo isso é proibido!” Sim, tanto quanto o Orkut é proibido para menores.
“Ah, mas eu cuido do perfil do meu filho. Vejo quem convida ele. Controlo tudo de cima!” Gente, quanta ingenuidade! Comumente, filhos entendem mais de informática do que os pais. Sabe-se de crianças que têm um perfil comportado, desses que contam com a bênção dos pais cuidadosos, e têm outro de “safadinho”, usado quando os pais
cuidadosos vão cuidar da própria vida, ou quando usam em lan house, ou na casa dos amigos.
Esses pais ingênuos (relapsos?) também parecem/preferem ignorar que muitas crianças no Orkut não passam de pedófilos disfarçados: nome de criança, foto de criança, comunidades de crianças e álbum recheado de pornografia infantil.
Ainda no tocante à ignorância cibernética, recebo constantemente mensagens sobre o vírus do ursinho, sobre a bíblia dos monges, sobre a apresentação “a vida é bela”, sobre a garotinha que foi seqüestrada ontem… Mensagens essas enviadas por pessoas com curso superior, bem informadas, profissionais liberais. Se essas pessoas não conseguem separar o joio do trigo internáutico, esperam que as crianças consigam? Esperam que as crianças distingam entre um novo miguxo de verdade e um doente sexual disfarçado? Essa ingenuidade pode custar muito caro.
“Mas eu não tenho culpa se esses monstros estão lá!” Sim, você não tem culpa. O Orkut tem, por demorar tanto a entregar provas à Polícia Federal sobre a presença dessas abominações. Isso é tema de outra grande briga… Mas você, prezado pai irresponsável, tem toda a culpa por expor sua filha de biquini no meio de um ambiente em que ela não deveria estar. Você é culpado por negligência, pois desfila o erotismo precoce de sua filha (aprovado e exibido por você nas fotos que você mesmo tira) numa passarela ladeada de adultos, de pervertidos os mais inomináveis. Sua desculpa é: “Ei, vocês, tapem os olhos para minha filhinha fofuxa do papai desfilar aqui! Seus pervertidos!”
Miguxos tarados amam pais irresponsáveis. Amam mesmo. Os comentários estão lá: “Olha o jeito que o pai olha pra menina!” “De perninha aberta! E o pai que tá tirando a foto!” “Esse pai é demais, né? Olha a fotinha que ele tirou da filhinha!”
As comunidades pedófilas estão lá: não expõem uma imagenzinha de pornografia infantil, de abuso sexual, de estupro de crianças (e para muitos pedofilia é só isso). Nada de violento, de feio, de sanguinolento ou brutal. Nada. Tudo muito asséptico: apenas links para os álbuns de fotografias de crianças que não deveriam estar no Orkut. Fotografias tiradas e expostas pelos pais. Fotografias da Bárbara Ferreira, da Mariana Gonçalves, da Juliana Silva, de tantas outras. Inclusive da sua filha.
E o que dizem os donos e os freqüentadores dessas comunidades? Ao lado da convocação para a ferrenha masturbação (pelo que me consta, as pessoas só se masturbam por aquilo que lhes excita sexualmente…), o deboche: “Não estamos fazendo nada demais. Estamos apenas divulgando as fotografias que os próprios pais mostram!” E enquanto a Bárbara, a Mariana, a Juliana, sua filha, sua sobrinha, pensam estar apenas ajeitando o biquíni, um pervertido as devora em seus insanos pensamentos, talvez até agradecendo pelo maravilhoso pai que elas têm.
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